Notícias
Avicultura gaúcha aposta em governança, tecnologia e sanidade para manter peso nacional
13/08/2026
voltar
Para o presidente executivo da Asgav, José Eduardo dos Santos, o Rio Grande do Sul segue competitivo apesar do déficit de milho, da pressão tributária e de um ambiente produtivo considerado mais complexo.
A avicultura gaúcha chega a 2026 sustentando uma posição relevante no mapa brasileiro da produção de carne de frango e ovos, mesmo operando em um ambiente de custos pressionados e limitações estruturais. O Rio Grande do Sul convive há anos com déficit entre produção e consumo de milho, efeitos remanescentes da guerra fiscal e uma percepção recorrente de que o Estado é uma praça mais difícil para produzir.
Ainda assim, segundo o presidente executivo da Associação Gaúcha de Avicultura (Asgav), José Eduardo dos Santos, o setor mantém protagonismo nacional pela combinação entre resiliência empresarial, capacidade produtiva, organização institucional e qualidade industrial. “Apesar das adversidades enfrentadas nos últimos anos e o déficit de produção de milho versus consumo no Rio Grande do Sul e os efeitos remanescentes da guerra fiscal, o setor se manteve como o terceiro maior produtor e exportador de carne de frango em volumes exportados e receita cambial, e está entre os cinco principais produtores e exportadores de ovos do Brasil”, afirma Santos, destacando que esse desempenho é resultado direto de muita resiliência, empreendedorismo e qualidade na produção de carne de frango e ovos no Estado.
O contexto nacional ajuda a dimensionar o peso dessa disputa. Dados do Relatório Anual 2026 da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), com números consolidados de 2025, mostram que o Brasil produziu 15,289 milhões de toneladas de carne de frango, exportou 5,324 milhões de toneladas e obteve receita de aproximadamente US$ 9,8 bilhões com os embarques. O país se manteve como maior exportador mundial e terceiro maior produtor global de carne de frango.
Nesse cenário, a manutenção do Rio Grande do Sul entre os principais estados produtores e exportadores não ocorre sem pressão: depende de escala industrial, logística, sanidade, oferta de matéria-prima, capacidade de investimento e coordenação setorial.
Santos reconhece que o ambiente gaúcho impõe dificuldades, mas pondera que o Estado preserva atributos que sustentam a permanência e a expansão de empresas. “Muitos configuram o Rio Grande do Sul como um Estado difícil de produzir, e isso até pode ser, mas algumas vantagens e características mantêm muitas indústrias aqui, e outras continuam investindo em ampliações, além de novos investidores que se instalam de tempos em tempos no Estado”, avalia.
Nos últimos anos, a configuração do setor também mudou. O presidente executivo da Asgav cita a entrada de novos investidores, aquisições de plantas frigoríficas e granjas de produção de ovos por grandes grupos, além da diversificação de produtos e da busca por inovação e modernização na produção. Esse movimento acompanha uma tendência observada em outras regiões produtoras: empresas buscam maior eficiência, ampliação de portfólio, controle sanitário mais rígido e processos industriais mais integrados.
A agenda sanitária ganhou peso adicional depois da entrada da influenza aviária no Brasil, em 2023. Embora o país tenha preservado seu sistema produtivo comercial, o episódio reforçou a necessidade de vigilância permanente e de protocolos mais rigorosos. “Destaca-se a atenção e reforço nas medidas de biosseguridade com a entrada da Influenza Aviária no Brasil em 2023”, afirma Santos.
Para a indústria avícola, biosseguridade deixou de ser apenas requisito técnico e passou a ser componente direto de competitividade, acesso a mercados e gestão de risco.
Inteligência Artificial
Ao mesmo tempo, a digitalização avança sobre a cadeia. “Atualmente, se percebe o crescente uso de sistemas com inserção de Inteligência Artificial no processo industrial e de gestão técnica à campo”, frisa Santos.
Na prática, essas ferramentas podem atuar em diferentes frentes, como monitoramento de ambiência, gestão zootécnica, avaliação de desempenho, controle de processos industriais, rastreabilidade, manutenção preditiva e apoio à tomada de decisão. O ponto central, para o setor, é transformar dados dispersos em informação útil para reduzir perdas, melhorar eficiência e antecipar problemas.
Governança na Asgav
Para a Asgav, a capacidade de resposta do setor gaúcho está diretamente ligada à governança institucional. Santos afirma que a entidade atua com uma estrutura organizada, formada por conselho diretivo, presidente de conselho, presidente executivo, comissões temáticas e técnicas, quadro funcional e consultorias em áreas consideradas estratégicas. Essa base, segundo ele, permite atuação mais rápida em temas sanitários, regulatórios, tributários, comerciais e de comunicação. “Temos uma governança proativa e organizada, um conselho diretivo, um presidente de conselho, um presidente executivo, comissões temáticas/técnicas, quadro funcional e consultorias em áreas estratégicas do setor. Também temos uma interlocução muito boa com os Serviços Oficiais e com a imprensa”, destaca, enfatizando: “Essa base toda nos dá condições de uma gestão dinâmica e com preparo para atuar em diversas situações que impactam o setor”.
A articulação institucional também é apresentada por Santos como instrumento de gestão de crise e defesa setorial. “Isso é base para uma profícua e estruturada articulação institucional que permite atuar com agilidade em gestão de crises, projetos e movimentos de interesse setorial”, complementa.
Para ele, em uma atividade exposta a eventos sanitários, oscilação de custos, disputas comerciais e exigências regulatórias, a capacidade de coordenação entre indústria, produtores, técnicos, serviços oficiais e representação política passa a ter papel estratégico.
Eventos técnicos
Essa lógica também explica o investimento da Asgav em eventos técnicos e de relacionamento. A entidade promove a Conbrasul Ovos, Conferência Brasil Sul da Indústria e Produção de Ovos, em anos ímpares, e a Conbrasfran, Conferência Brasil Sul da Indústria e Produção de Carne de Frango, em anos pares. A proposta é reunir lideranças do setor, governos, fornecedores de serviços, equipamentos, tecnologias, mídia e produtores em uma agenda que combine discussão técnica, análise conjuntural e networking. “Desenvolvemos estas conferências com o objetivo de mobilizar as lideranças do setor, governos, fornecedores de serviços, equipamentos, mídia, tecnologias e produtores, num formato de discussões técnicas e conjunturais relevantes e com atividades sociais que propiciam momentos especiais de networking e muita troca de informações entre os participantes”, enaltece Santos.
Segundo ele, o conteúdo das conferências tem buscado responder a temas que afetam diretamente a competitividade da cadeia. “Com a riqueza de assuntos, palestrantes e painelistas de alto nível de conhecimento, estas conferências ajudam o setor a enfrentar os desafios de mercado, cenários globais de crises e eventos sanitários, e as novas tecnologias e comportamento de consumo das novas gerações”, afirma. Além da programação técnica, os eventos contam com uma central de negócios em formato de feira compacta, reunindo fornecedores de tecnologias, equipamentos e serviços.
O crescimento da adesão levou a Asgav a discutir a possibilidade de unificar, no futuro, as conferências dedicadas a ovos e carne de frango. Santos afirma que os eventos atraem participantes de diferentes estados do Brasil e do exterior, e que a expansão da procura tem exigido novos formatos. Para ele, o retorno de participantes a cada edição mostra que a busca por atualização técnica e relacionamento segue como necessidade concreta da cadeia produtiva. “O que podemos observar é que a cada edição, muitos participantes retornam e novos se inscrevem. Isso comprova que a busca de conhecimento e de momentos de networking especiais motivam e ampliam a visão de cada participante, com base nas temáticas apresentadas e debatidas”, avalia.
Na leitura do presidente executivo da Asgav, não há temas secundários quando o assunto interfere em produção, qualidade, sanidade ou competitividade. “Não temos esta diferenciação, pois tudo que impacta e interfere em produção, qualidade, sanidade e competitividade, sempre ficarão no centro das atenções para a avicultura”, afirma. A declaração resume uma agenda ampla, que vai de sanidade e biosseguridade à logística, tributação, mercado, tecnologia da informação, qualidade industrial e comportamento de consumo.
Cadeia conectada
Manter a cadeia conectada, no entanto, não elimina a competição interna. Santos reconhece que a concorrência entre indústrias e produtores faz parte da dinâmica do setor. “A competividade entre indústrias e produtores sempre será acirrada. O mercado é um movimento competitivo e vivemos numa eterna competição”, diz.
Para ele, justamente por atuar em produção de massa, voltada ao mercado interno e externo, a avicultura precisa de uma estrutura institucional sólida, organizada e confiável. “Assim, uma entidade que propicia e reflete estas características, consegue manter a cadeia conectada, nem que seja o mínimo necessário para se ter a base organizada e amparada”, afirma.
A avaliação indica uma função pragmática da representação setorial: não substituir a estratégia individual das empresas, mas manter canais mínimos de organização coletiva em temas que afetam todo o setor.
Projetos coordenados
À frente da entidade, Santos acaba de ser nomeado para a terceira gestão como presidente executivo da Organização Avícola do Rio Grande do Sul, que reúne Asgav, Sipargs e programas e projetos coordenados pela instituição. Ele afirma seguir a hierarquia de gestão, mas com autonomia para aprimorar, modernizar e organizar atividades e projetos. “Esse sistema tem dado resultado satisfatório, se não 100%, mas a ampla maioria dos associados aprovam”, ressalta.
Entre as iniciativas citadas por ele estão o Programa Ovos RS, a certificadora para sistemas alternativos de produção, o sistema de comissões temáticas, ações de comunicação digital, campanhas de incentivo ao consumo de carne de frango, ovos e derivados, além de projetos de valorização das marcas que produzem no Rio Grande do Sul. Santos também menciona a atuação da entidade em debates fora do Estado, inclusive em discussões sobre geopolítica e impactos sobre os setores produtivos.
Agenda 2026
A agenda de 2026 reforça esse posicionamento. No primeiro semestre, a entidade realizou reuniões de comissões temáticas, fóruns estratégicos, participações em eventos e reuniões em diferentes regiões do Estado e do país, além de atendimento à imprensa. A partir de agosto, a Asgav prevê presença na Expoagas, feira dos supermercadistas, na Expointer, com o Fórum Avicultura Conexões e a Vitrine da Carne, e no SIAVS 2026, em São Paulo. Para o SIAVS, Santos informa que a entidade coordenará uma delegação de 70 integrantes e terá um estande especial como ponto de encontro, atendimento a visitantes e relacionamento institucional.
O encerramento da agenda anual terá como principal marco a segunda edição da Conbrasfran, de 23 a 25 de novembro de 2026, em Gramado (RS). Segundo Santos, a cinco meses do evento, a programação está 99% pronta e a central de negócios 99% comercializada. Para ele, esse nível de adesão reflete a procura e a relevância da conferência para a cadeia.
A estrutura da Conbrasfran combina programação técnica setorial pela manhã e programação magna principal à tarde. Entre as atividades técnicas estão o 7º Simpósio Asgav – Atualizações em
Sanidade Avícola; o 6º Encontro de Qualidade Industrial Asgav; o 4º Agrojurt, voltado a assuntos jurídicos e tributários; o 3º Seminário da Área Comercial das Indústrias Avícolas; o 2º Agrologs, sobre logística e suprimentos; e o 1º Seminário de Tecnologia da Informação na Avicultura.
Na programação magna, estão previstos três painéis, um por tarde, com temas conjunturais e de inovação. Entre os destaques informados pela organização estão o painel “Mulheres no World Business”, no dia 23 de novembro à tarde, e o 1º Seminário HighTech Avícola – Tecnologia da Informação, na manhã de 25 de novembro.
Mais do que uma vitrine institucional, a Conbrasfran sintetiza a agenda que a avicultura gaúcha tenta organizar para os próximos anos: manter competitividade em um Estado com custo produtivo pressionado, reforçar a sanidade em um ambiente global mais exigente, incorporar tecnologia sem perder eficiência operacional e sustentar canais de representação em uma cadeia marcada por competição intensa. Para Santos, essa combinação entre governança, técnica e articulação é o que permite ao setor seguir relevante no cenário nacional e internacional.
Fonte: O Presente Rural
Créditos de Imagem: Banco de Imagens ASGAV





